Embora vários países tenham confirmado a presença de reservas de Elementos Terras Raras (ETRs), a China monopoliza o mercado desde a década de 1990. Até 2015, o território da cidade de Baotou foi responsável pelo fornecimento de aproximadamente 95% da oferta mundial de ETRs. Os Estados Unidos da América estão desenvolvendo o projeto denominado Bear Lodge, que possui potencial para competir com a China principalmente em relação à produção de Nd, Eu, Tb, Dy e Y. Porém, o país norte-americano indica que, ao contrário do país asiático, a produção será realizada com emissões atmosféricas reduzidas.
No período entre 1886 e meados da segunda década do século XX, o Brasil foi o maior exportador mundial de monazita, minério que contém ETRs na forma de fosfatos. Porém, a produção brasileira de ETRs foi se tornando insignificante com o passar do tempo. Em 2014, as importações de compostos químicos e produtos manufaturados de ETRs somaram US$ 13 milhões, enquanto que as exportações totalizaram apenas US$ 383 mil. Por outro lado, o Brasil passou a ser a 2ª maior reserva mundial de ETRs recentemente, com a incorporação de expressivas reservas em Minas Gerais e Goiás.
Parte dos ETRs produzidas em território brasileiro são consumidos diretamente por indústrias nacionais (catalisadores, vidros e cerâmicas), além de haver consumo indireto por parte de fabricantes de motores e turbinas eólicas. Por exemplo, o Nd é utilizado como material magnético em carros híbridos, turbinas eólicas e robôs cirúrgicos. A combinação de Y, Pr e Nd pode aprimorar a resistência do vidro a impactos e diminuir seu grau de expansão. De forma geral, a indústria moderna faz bastante uso de ETRs em uma vasta gama de produtos com alto valor agregado.
O desenvolvimento de tecnologias para processamento de minerais ricos em ETRs é essencial para o aproveitamento das jazidas brasileiras, assegurando que o país se posicione não apenas como minerador, mas, principalmente, como produtor de ETRs concentrados, conferindo independência no cenário global. A produção interna de ETRs pode ser considerada uma questão de segurança pública, visto que esses elementos vêm sendo cada vez mais requisitados pelas indústrias de alta tecnologia. O enriquecimento de ETRs internamente tornaria o Brasil independente de outros países, reduzindo importações, aumentando as exportações e gerando riquezas e divisas para o país.
O problema relacionado ao enriquecimento de ETRs a partir de minérios com mineralogia complexa como o kamafugito é o fato de que o licor produzido após as diversas etapas de dissolução da rocha possui uma diversidade de elementos e espécies químicas. Isto requer que o material extrator, na forma sólida ou líquida, seja muito seletivo para a separação de grupos de ETRs ou ETRs individuais. Os processos de enriquecimento comumente utilizados envolvem a extração líquido-líquido, no qual um extrator líquido é colocado em contato com o licor contendo as ETRs. Devido a forças de Van der Walls e outros fenômenos físico-químicos, os ETRs se difundem para o extrator, onde são concentrados.
Em outra abordagem, os ETRs são recuperados a partir do contato com um sólido extrator, em uma extração sólido-líquido. Os ETRs adsorvem-se na superfície do material, e a seletividade para a adsorção pode ser controlada através do controle das propriedades físico-químicas da superfície. A utilização de extratores sólidos poderá ser uma via para a adsorção seletiva de ETRs em licores com composição complexa, como aqueles obtidos do kamafugito, além de viabilizar a separação licor/extrator por simples filtração, o que não é possível nos métodos líquido-líquido tradicionais.
Contrato 38/2022 firmado entre a Universidade Federal do Paraná e a empresa Terra Brasil Minerals